História

A história do Instituto Evandro Chagas começa na década de 30 quando o Dr. Henrique Penna, da Fundação Rockfeller no Rio de Janeiro, revela em artigo científico a existência de 41 casos de leishmaniose visceral, em cortes de fragmentos de fígado obtidos em numerosas localidades do interior do país. Como a leishmaniose visceral (conhecida também por calazar) se constituía em uma grave doença em vários países e até então não havia sido detectada no Brasil, o Instituto Oswaldo Cruz, na época chefiado pelo cientista Carlos Chagas, organizou a Comissão de Estudos de Leishmaniose Visceral Americana, sob a coordenação do Dr. Evandro Chagas.

A Comissão chega ao Pará em 1936 e instala-se na localidade de Piratuba, no município de Abaetetuba, de onde fora remetido o material analisado por Henrique Penna. À frente de uma equipe formada por jovens médicos e farmacêuticos, Evandro Chagas logo descobriu que a Amazônia era um campo fértil para pesquisas nas áreas médica e científica. Foi então que sugeriu ao governador da época, José Carneiro da Gama Malcher, que instalasse um instituto de pesquisa destinado a ampliar os estudos sobre as doenças regionais. Com seu apoio surge, mediante a Lei n° 59 a 11 de novembro de 1936, o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN), cujo objetivo inicial era estudar o Calazar e outras endemias regionais.

O primeiro diretor administrativo foi Antônio Acatauassú Nunes Filho, catedrático de Microbiologia. Evandro Chagas foi nomeado Diretor Científico e conseguiu pela sua liderança e inteligência lúcida, formar uma equipe com jovens profissionais saídos das faculdades de medicina e farmácia, constituindo assim a primeira escola de pesquisadores de carreira em saúde em nossa região. Dentre eles estavam Jayme Aben-Athar, Leônidas Deane, Gladstone Deane, Otávio Mangabeira Filho, Madureira Pará, Felipe Nery Guimarães, Geth Jansen, Benedito Sá, Reinaldo Damasceno e Maria José Paumgartten (depois Maria P. Deane).

Evandro Chagas transformou a Comissão de Estudos de Leishmaniose Visceral Americana em Serviço de Estudos das Grandes Endemias, responsável pelo estudo da leishmaniose e de outras doenças existentes na região. Com o passar dos anos, as atividades foram ampliadas, incluindo estudos sobre leishmaniose tegumentar (que produz lesões na pele e mucosas), tripanossomíase americana e eqüina, malária e filariose.

O IPEN também entrou na campanha, realizada no Nordeste, contra o Anopheles gambiae (transmissor da malária humana, importado do continente africano através da aviação), instalando no Ceará um laboratório para diagnóstico da doença e identificação desse mosquito. Diante dos resultados preliminares dos estudos desenvolvidos, Evandro Chagas decidiu fazer pesquisas de campo em vários pontos da Amazônia. Em 1940, em conjunto com a Delegacia Federal de Saúde, o IPEN iniciou um vasto estudo sobre malária, distribuindo equipes bem treinadas pelo Pará, Amazonas e Acre.

Em 8 de novembro de 1940, no auge de sua atividade científica e aos 35 anos de idade, Evandro Chagas falece precocemente, vítima de acidente aéreo. Em reconhecimento ao trabalho realizado pelo cientista na região, em 2 de dezembro daquele ano, o Governo do Estado deu ao IPEN o nome de Instituto Evandro Chagas.

Em 1942, o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), organismo concebido pelos governos brasileiro e americano, incorporou o IEC como seu laboratório central e órgão de pesquisa, dotando-o em 1943 de um moderno hospital, o qual funcionou até o final da década de 40. Em 1954 foram implantadas as pesquisas na área de virologia, com o aval técnico e financeiro da Fundação Rockefeller.

   

No início da década de 60, o diagnóstico de várias viroses foi possível com a implantação de técnicas de cultivo celular. A partir de 1965, foram implementados programas na área da parasitologia com ênfase à leishmaniose tegumentar, fruto de um convênio envolvendo a Fundação SESP (FSESP), Escola de Medicina Tropical da Universidade de Londres e Wellcome Trust

Outros convênios de cooperação foram firmados a partir de 1973 com o Instituto Walter Reed de Washington, Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, Universidade Vale e ORSTOM, sendo fundamentais para o crescimento institucional.

Em 22 de maio de 1970, através do Decreto n.º 66.624, o IEC foi transferido do âmbito da FSESP para a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), sendo reintegrado à FSESP em 11 de julho de 1975 e ficando subordinado diretamente à Presidência até 1990, como organismo de pesquisas biomédicas.Em 1991 passou a fazer parte da Fundação Nacional de Saúde (FNS) criada com a fusão da FSESP e Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM).

O Decreto n.º 3.450 de 9 de maio de 2000 estabeleceu as unidades descentralizadas nas quais estão incluídos entre outros o Instituto Evandro Chagas. Em 09 de Junho de 2003 (Decreto n.º 4.726), o IEC passou a integrar a estrutura da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), como unidade gestora independente, na qual encontra-se atualmente.

"[...] Nos primeiros anos, as verbas eram curtas, mas sobrava o entusiasmo e diante de nosso fanatismo profissional os desconfortos, riscos e dificuldades eram quase sempre ignorados. Passamos grande parte de um período de dois anos (1937-1938) nas matas de Piratuba, município de Abaetetuba, no Pará, tendo como residência uma palhoça, junto à qual ficavam o "laboratório" e o "refeitório", sob tendas de lona; trabalhávamos do alvorecer até tarde da noite, à luz de lampiões de querosene, vendo doentes, puncionando esplenomegalias, examinando cães, gatos e animais silvestres, capturando flebótomos e mosquitos, dormindo em redes às vezes armadas entre árvores, ou no chão de barracas, paióis ou trapiches; viajávamos léguas a pé ou em barcos com motor de popa ou canoas, carregando às costas redes, mosquiteiros e parte do rancho e da parafernália necessária ao trabalho; passamos por violentas tempestades nas matas ou nos rios, naufragamos duas vezes e Evandro sofreu um sério acidente quando, viajando sozinho num bote a motor, a explosão deste provocou-lhe queimaduras que o mantiveram por muitos dias no hospital.

Em sete décadas de existência o Instituto Evandro Chagas contribuiu diretamente para o avanço das pesquisas médicas na Amazônia. A prova disso são as inúmeras descobertas nos campos da Parasitologia, Virologia e Bacteriologia que lhe deram destaque nacional e internacional. Ao longo desse tempo, com o apoio de organizações brasileiras e estrangeiras, dezenas de pesquisas foram implementadas com sucesso.

Dentre as pesquisas que tiveram repercussão mundial, estão: a descoberta, pela primeira vez na América do Sul, de um hemoproteídeo novo em morcegos; a incriminação do Anopheles darlingi e do Anopheles aquasalis, como os principais transmissores de malária em Belém; a demonstração na filariose, da periodicidade noturna das microfilárias no sangue periférico e seu transmissor, o Culex quinquefasciatus; a revelação de novos hospedeiros silvestres do Trypanosoma cruzii, (a irara e a mucura-xixica); o estudo da biologia do Anopheles gambiae, transmissor da malária; a mostra da freqüência de infecção do T. cruzi no Pará, em mamíferos silvestres; descrição de duas novas espécies de anofelinos, o Anophles galvaoi e o Anopheles dunhami; a mostra da freqüência da filariose bancroftiana em Belém e a elucidação do meio de transmissão da doença; o primeiro diagnóstico no Brasil, em material oriundo de Manaus, da Mansonella ozzardi; a descoberta da infecção natural de uma espécie de barbeiro - Panstrongylus lignarius - pelo T. cruzii; a constatação, pela primeira vez na Amazônia, da infecção de ratos pela Leptospira e de pessoas e vacas por brucelas.

Na área da Parasitologia o IEC fez um completo estudo sobre a ecologia e a epidemiologia da leishmaniose tegumentar. O resultado foi a caracterização específica das Leishmanias humanas encontradas no Norte do Brasil e uma nova classificação das Leishmanias do Novo Mundo, atualmente utilizada pela OMS. Hoje, o IEC possui uma das maiores coleções mundiais de cepas de Leishmania, conservadas em nitrogênio líquido. Foram identificados os reservatórios silvestres e os principais vetores das Leishmania (V.) brasiliensis, Leishmania (V.) guyanensis, Leishmania (L.) amazonensis, Leishmania (V.) lainsoni e Leishmania (V.) naiffi.

As conquistas sobre a doença de Chagas incluem o registro dos primeiros casos autóctones na Amazônia brasileira; a caracterização bioquímica das cepas de Trypanosoma cruzi e a conseqüente identificação dos zimodemos 1, 2 e 3; a identificação de 12 espécies de triatomíneos e a incriminação de nove dessas espécies como possíveis vetores da doença na Amazônia.

As pesquisas sobre malária resultaram na caracterização enzimática, antigênica e biológica de cepas de Plasmodium vivax na Amazônia, e o estudo da resistência do P. falciparum a drogas antimaláricas, como cloroquina, mefloquina, quinino e amodiaquina, “in vitro” e “in vivo”.

Os estudos sobre esquistossomose comprovaram, pela primeira vez, a infecção natural de Biomphalaria glabrata por Schistosoma mansoni, em Belém, e conseguiram isolar, também pela primeira vez, uma cepa de S. mansoni, de um caso autóctone no Pará.

Na área da Virologia, a principal conquista do IEC, foi o isolamento e caracterização de 187 tipos diferentes de arbovírus, um recorde mundial que deu à instituição renome nacional e internacional.

A estas conquistas somam-se o diagnóstico em laboratório da poliomielite e outras doenças causadas por vírus através de técnicas de cultivo celular; a demonstração pela primeira vez, da presença do rotavírus no Brasil, em parceria como Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo; a detecção, pela primeira vez, da ocorrência do vírus influenza H1 N1 no país, sendo que a cepa isolada passou a ser utilizada mundialmente como amostra padrão, com a denominação A/Brasil/11/78; a pesquisa sobre papilomavírus humano com mulheres da zona urbana de Belém e de aldeias indígenas, comprovando a associação deste vírus com o câncer de colo de útero.

Quanto aos Arbovírus, destacam-se os isolamentos do vírus da febre amarela no Brasil; o primeiro registro no país da espécie Haemagogus albomacullatus e sua implicação como vetor da febre amarela silvestre; o primeiro isolamento do vírus amarílico a partir do sangue de um indígena; o estabelecimento do ciclo urbano da febre Oropouche (Culicoides paraensis, Culex quinquefasciatus e homem); a transmissão experimental do vírus Oropouche do homem ao hamster, pela picada do Culicoides paraensis, a revelação do envolvimento do Sabethes glaucodaemon, pela primeira vez, como transmissor da febre amarela; o estabelecimento de ciclos de inúmeros arbovírus, muitos deles patogênicos para o homem e a detecção da primeira epidemia de dengue no Brasil, em bases clínico-laboratoriais.

No estudo das hepatites, de relevância cabem a identificação e caracterização da febre negra de Lábrea e o registro, pela primeira vez no Brasil, da presença do vírus Delta, em colaboração com o CDC (EUA).

Na área da Bacteriologia foram feitos importantes estudos epidemiológicos e ecológicos, particularmente sobre enteroinfecções bacterianas e leptospirose. Com a abertura de estradas na Amazônia, foram obtidas várias descobertas científicas, como, por exemplo, a descrição da Síndrome Hemorrágica de Altamira. O primeiro foco de oncocercose no Brasil foi revelado em terras dos índios Yanomami, sendo realizados estudos sobre sua distribuição geográfica, transmissão e vetores implicados, além dos sintomas e tratamento adequado.

A pesquisa sobre Coccídios obteve a descrição de uma nova família de parasitos maláricos no sangue de répteis, com 3 gêneros e 9 espécies novas. Outras 51 novas espécies de coccídios, do sangue ou do intestino, foram descritas em peixes, anfíbios, lagartos, cobras, quelonídeos, jacarés, pássaros e mamíferos selvagens. Foi registrado ainda o primeiro isolamento de toxoplasma, em um caso da doença na Amazônia, além de vários exemplos de infecções fatais em animais selvagens, como a preguiça e a raposa.

A área de Entomologia Médica e Helmintologia registra conquistas no trabalho sobre lagoquilascaríase, como contribuição amazônica para pesquisas em nível mundial. Também é responsável pela realização de importantes estudos sobre os mecanismos de transmissão ao homem e aos animais domésticos.

No campo da terapêutica, a demonstração, pela primeira vez, da infecção natural do gato doméstico pela espécie causadora da doença no homem. Os trabalhos sobre acidentes hemorrágicos causados por larvas de mariposa levaram a identificar a larva da mariposa Lonomia achelous como agente causador. As pesquisas sobre miíases foram importantes para o estudo dessas afecções em patologia humana, demonstrada através da pesquisa em 70 casos, permitindo dessa forma, diagnosticar as características clínicas e epidemiológicas da doença, na Amazônia.

Datas Comemorativas

10/08/1905 - Aniversário de nascimento do pesquisador Evandro Serafim Lobo Chagas.
10/11/1936 - Data de criação do Instituto de Pathologia Experimental do Norte - IPEN.
02/12/1940 - Data em que o IPEN passa a se chamar Instituto Evandro Chagas.

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Instituto Evandro Chagas
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